A Glauber o que é de Glauber

outubro 28, 2009 · Postado em Crônicas Interiores 

Por Rogério Menezes *

Há quem especule sobre o futuro do cineasta Glauber Rocha caso tivesse sobrevivido ao tsunami neoliberal que há algum tempo inunda todas as galáxias do universo. Alguns vaticinam: sem choro nem vela, teria se matado; quiçá, enlouquecido. Ou ainda, o que talvez fosse mais provável, tal o espírito-de-corpo que sempre o arrebatou, faria comentários cinicamente desconcertantes, ou assumidamente neoliberais, nas redes-globos da vida.
(Digressões futurológicas à parte, o certo, o cabal, é: o cineasta baiano voltou ao pó, para onde, aliás, todos voltaremos um dia).
Mas há (Deus seja louvado!) evidentes & retumbantes sinais de que esse pó, tangido por algum vento forte e bem-vindo lufado por algum anjo anunciador de boa cepa, navegue sobre mares e sertões Brasil (& mundo) afora – e inspire & incorpore corações e mentes daqui & d´além-mar. Meio assim como algum éter salubre e tonificante que, tal & qual fogo-fátuo arrebatador, transforme aqui e ali certas situações (& pessoas), aparentemente banais, em réplicas hiperrealistas (& criadores de réplicas hipperrealistas) do cinema que criou.
Era o que se dava (ou o que este cronista imaginava que se dava) a cada momento que eu, e centenas de pessoas, acompanhávamos o frenético tsunami cultural que invadiu as ruas de Lençóis no fim de tarde espetacularmente quente de 25 de outubro de 2009. Sem droga alguma a embalar meus devaneios, avistava o espectro de Glauber Rocha a pairar sobre tudo e todos – e não podia deixar de delirar sobre o seguinte: toda a mitologia política-&-cultural-&-social brasileira que explodia colorido (e, às vezes, em p&b) nos filmes que dirigiu se materializava ali e naquela hora, em cada palmo do chão de pedra lençoense.
A idéia, pelo que vislumbrei a partir do caos arrebatador (& lisérgico) que arrebatou becos e vielas de Lençóis, era celebrar a cultura – essa, digamos, entidade que amedronta a alguns; mas que poderá ser definida como algo tão inerente ao homem como o ato de respirar – a cada lufada de ar que emanamos & aspiramos fazemos cultura – simples (e fundamental) assim. (Claro, ainda existem certos ´mudernos´ que teimam em bradar: a cultura é Pina Baush & outros mamas & papas da alta cultura, e nada mais quê; na verdade, é isso & e aquilo; Mozart & comida a quilo; alhos & bugalhos, Anne-Sophie-Mutter & Luiz Gonzaga; ternos de reis & Radiohead).
O Joãozinho Trinta dessa inesperada celebração glauberiana no coração da Chapada Diamantina era homem pequeno & ágil & serelepe chamado Pitágoras Luna. Nascido em cidade da região (Seabra), se dedicava aos preparativos desse evento com o desvelo com que mãe zelosa prepararia festa de debutantes da filha (e isso, advirto-lhe, caro leitor, é um puta-elogio; acho que baile-de-debutante também é cultura; e, de fato, é).
Não, o pequeno & serelepe & ágil Pitágoras Luna não assistiu (nem precisou assistir) a nenhum dos filmes de Glauber Rocha, e, muito menos, estava fazendo ali, nos altos grotões do interior da Bahia, simulacro assumido do pathos glauberiano. Na verdade, o pequeno & serelepe & ágil Pitágoras Lima teria ouvido falar apenas en passant do cineasta baiano. Na verdade, o que torna tudo tão revelador é exatamente o fato de Pitágoras Luna realizar evento tão glauberiano sem nunca ter visto um filme de Glauber Rocha.
Ou seja, evidencia-se nessa pueril celebração da cultura nos altos grotões da Bahia o quanto o cinema de Glauber era, e é, visionário. A cada flagrante de frenética banda musical que seguia altas & baixas autoridades locais & estaduais, & que tocava hits de carnavais de outrora (como Mulata Bossa Nova –Mulata bossa bova/caiu no hully gully/E só dá ela– e Allah-La-Ô – atravessamos o deserto do Saara/o sol estava quente/e queimou a nossa cara), eu via Glauber; a cada olhada que dava no grupo de meninas e meninas que, a bordo de calor colossal, se vestiam até o pescoço com coloridas, mirabolantes e rebuscadas roupas de veludo que remetiam toscamente às cortes francesas, eu via Glauber; a cada grupo de ternos de reis que se fundiam a grupo de mulheres fantasiadas de baianas que se fundiam a gentes fantasiadas de matutos que se fundiam a batalhões de mascarados que se fundiam a homens seminus pintados de preto à guisa de escravos, eu via Glauber.
Mais exatamente – naquela panacéia de cores, ritmos, pulsações, suores e entusiasmos – eu revia imagens fruídas em salas escuras – e vazias – nas quais se exibiam filmes como O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (no qual desfile cívico multicolorido atravessa freneticamente as ruas de Amargosa, no Vale do Jiquiriçá; & aquilo tinha tudo a ver com isso que ora acontecia nas ruas de Lençóis); e nas quais também se exibiam filmes como Terra em Transe (no qual políticos e gentes do povo se irmanavam em eventos públicos sempre delirantes como esse que ora acontecia nas ruas de Lençóis).
Não tinha droga nenhuma a temperar meus devaneios – apenas a endorfina produzida pela correria em acompanhar o frenético cortejo circulava-me pelo sangue. Mesmo assim, deliro na seguinte possibilidade: na via inversa da personagem interpretada por Mia Farrow em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (que via o ator sair da tela e lhe contracenar), este locutor-que-vos-fala entraria na tela e estaria atuando em filme não identificado de Glauber Rocha.
Como se não bastasse, (glauberizando ainda mais essa já glauberianésima equação), me deixo atrair pela luz branca de pequena casa à margem do frenético cortejo, na qual funciona tosca igreja evangélica, do interior da qual se projeta tonitruante voz feminina a bradar: – Jesus te ama, Jesus te chama!
Em tentativa bem-sucedida de retomar o fôlego e processar informações armazenadas, paro à margem do cortejo, e vejo a banda passar. À frente dessa banda que passa, amigo-querido me vê, e aponta, a bordo de sorriso eufórico e cúmplice, para a placa da loja sobre a qual me aboletei. Lá está escrito: Tudo aqui. De fato, tudo ali, e naquela hora. Ave Glauber!

* O jornalista e escritor Rogério Menezes viaja pelo interior baiano a convite da Secretaria de Cultura da Bahia.

Comentários

2 Responses to “A Glauber o que é de Glauber”

  1. Nádia Barrêto on outubro 29th, 2009 12:39 pm

    Tudo ali! Mil informações e mais os próprios devaneios, né…?

    Cai direto no meu próprio surto multi-pluri-trans-in-formativo-e+devaneios sofrido durante “o cortejo” que comemorou os 132 anos do Liceu… um quase “choque heterodoxo”, uma quase overdose e… plenamente, um gozo!

    A sua descrição da cena remeteu-me à minha própria experiência, em momento simbolicamente semelhante, quando precisei estar marginal… quis me dar ao desfrute e gozar da visão exógena do momento…

    Quase me vi também ali, “entre Lençois” e a imagem que compus, da sua cena, posso resumir numa frase: a Bahia toda ali, linda e rindo, no seu próprio umbigo!

    Desejo que possa bem gozar, degustar, desfrutar desta tremenda aventura de Bahia.

    Ave,axé,evoé… (e bom apetite!)

    Nádia Barrêto.

  2. Zalmí de Souza Marques on novembro 3rd, 2009 10:00 am

    Rogério,

    A descrição da cena é fantástica, eu estive lá naqule dia, naquele instante em que as ruas de Lençóis foram invadidas pelas diversas culturas do interior da Bahia, mas somente uns olhos treinados e tomados por emoções podiam transcrever com tanta fidedignidade tal cena.
    Cada grupo que passava, cada som produzido invadia a alma dos que ali se encontravam. Com a leitura deste texto revivemos cada cena nos mínimos detalhes.
    Como os Glauberes devem estar orgulhosos, o que se foi rindo lá de cima com o que aqui plantara para servir de comparações e o que aqui está (Pitágoras) por receber tamanha homenagem.
    Parabéns Pitágora por nos presentear com esse evento.
    Parabéns Rogério pela reportagem.

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