A Glauber o que é de Glauber
Por Rogério Menezes *
Há quem especule sobre o futuro do cineasta Glauber Rocha caso tivesse sobrevivido ao tsunami neoliberal que há algum tempo inunda todas as galáxias do universo. Alguns vaticinam: sem choro nem vela, teria se matado; quiçá, enlouquecido. Ou ainda, o que talvez fosse mais provável, tal o espírito-de-corpo que sempre o arrebatou, faria comentários cinicamente desconcertantes, ou assumidamente neoliberais, nas redes-globos da vida.
(Digressões futurológicas à parte, o certo, o cabal, é: o cineasta baiano voltou ao pó, para onde, aliás, todos voltaremos um dia).
Mas há (Deus seja louvado!) evidentes & retumbantes sinais de que esse pó, tangido por algum vento forte e bem-vindo lufado por algum anjo anunciador de boa cepa, navegue sobre mares e sertões Brasil (& mundo) afora – e inspire & incorpore corações e mentes daqui & d´além-mar. Meio assim como algum éter salubre e tonificante que, tal & qual fogo-fátuo arrebatador, transforme aqui e ali certas situações (& pessoas), aparentemente banais, em réplicas hiperrealistas (& criadores de réplicas hipperrealistas) do cinema que criou.
Era o que se dava (ou o que este cronista imaginava que se dava) a cada momento que eu, e centenas de pessoas, acompanhávamos o frenético tsunami cultural que invadiu as ruas de Lençóis no fim de tarde espetacularmente quente de 25 de outubro de 2009. Sem droga alguma a embalar meus devaneios, avistava o espectro de Glauber Rocha a pairar sobre tudo e todos – e não podia deixar de delirar sobre o seguinte: toda a mitologia política-&-cultural-&-social brasileira que explodia colorido (e, às vezes, em p&b) nos filmes que dirigiu se materializava ali e naquela hora, em cada palmo do chão de pedra lençoense.
A idéia, pelo que vislumbrei a partir do caos arrebatador (& lisérgico) que arrebatou becos e vielas de Lençóis, era celebrar a cultura – essa, digamos, entidade que amedronta a alguns; mas que poderá ser definida como algo tão inerente ao homem como o ato de respirar – a cada lufada de ar que emanamos & aspiramos fazemos cultura – simples (e fundamental) assim. (Claro, ainda existem certos ´mudernos´ que teimam em bradar: a cultura é Pina Baush & outros mamas & papas da alta cultura, e nada mais quê; na verdade, é isso & e aquilo; Mozart & comida a quilo; alhos & bugalhos, Anne-Sophie-Mutter & Luiz Gonzaga; ternos de reis & Radiohead).
O Joãozinho Trinta dessa inesperada celebração glauberiana no coração da Chapada Diamantina era homem pequeno & ágil & serelepe chamado Pitágoras Luna. Nascido em cidade da região (Seabra), se dedicava aos preparativos desse evento com o desvelo com que mãe zelosa prepararia festa de debutantes da filha (e isso, advirto-lhe, caro leitor, é um puta-elogio; acho que baile-de-debutante também é cultura; e, de fato, é).
Não, o pequeno & serelepe & ágil Pitágoras Luna não assistiu (nem precisou assistir) a nenhum dos filmes de Glauber Rocha, e, muito menos, estava fazendo ali, nos altos grotões do interior da Bahia, simulacro assumido do pathos glauberiano. Na verdade, o pequeno & serelepe & ágil Pitágoras Lima teria ouvido falar apenas en passant do cineasta baiano. Na verdade, o que torna tudo tão revelador é exatamente o fato de Pitágoras Luna realizar evento tão glauberiano sem nunca ter visto um filme de Glauber Rocha.
Ou seja, evidencia-se nessa pueril celebração da cultura nos altos grotões da Bahia o quanto o cinema de Glauber era, e é, visionário. A cada flagrante de frenética banda musical que seguia altas & baixas autoridades locais & estaduais, & que tocava hits de carnavais de outrora (como Mulata Bossa Nova –Mulata bossa bova/caiu no hully gully/E só dá ela– e Allah-La-Ô – atravessamos o deserto do Saara/o sol estava quente/e queimou a nossa cara), eu via Glauber; a cada olhada que dava no grupo de meninas e meninas que, a bordo de calor colossal, se vestiam até o pescoço com coloridas, mirabolantes e rebuscadas roupas de veludo que remetiam toscamente às cortes francesas, eu via Glauber; a cada grupo de ternos de reis que se fundiam a grupo de mulheres fantasiadas de baianas que se fundiam a gentes fantasiadas de matutos que se fundiam a batalhões de mascarados que se fundiam a homens seminus pintados de preto à guisa de escravos, eu via Glauber.
Mais exatamente – naquela panacéia de cores, ritmos, pulsações, suores e entusiasmos – eu revia imagens fruídas em salas escuras – e vazias – nas quais se exibiam filmes como O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (no qual desfile cívico multicolorido atravessa freneticamente as ruas de Amargosa, no Vale do Jiquiriçá; & aquilo tinha tudo a ver com isso que ora acontecia nas ruas de Lençóis); e nas quais também se exibiam filmes como Terra em Transe (no qual políticos e gentes do povo se irmanavam em eventos públicos sempre delirantes como esse que ora acontecia nas ruas de Lençóis).
Não tinha droga nenhuma a temperar meus devaneios – apenas a endorfina produzida pela correria em acompanhar o frenético cortejo circulava-me pelo sangue. Mesmo assim, deliro na seguinte possibilidade: na via inversa da personagem interpretada por Mia Farrow em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (que via o ator sair da tela e lhe contracenar), este locutor-que-vos-fala entraria na tela e estaria atuando em filme não identificado de Glauber Rocha.
Como se não bastasse, (glauberizando ainda mais essa já glauberianésima equação), me deixo atrair pela luz branca de pequena casa à margem do frenético cortejo, na qual funciona tosca igreja evangélica, do interior da qual se projeta tonitruante voz feminina a bradar: – Jesus te ama, Jesus te chama!
Em tentativa bem-sucedida de retomar o fôlego e processar informações armazenadas, paro à margem do cortejo, e vejo a banda passar. À frente dessa banda que passa, amigo-querido me vê, e aponta, a bordo de sorriso eufórico e cúmplice, para a placa da loja sobre a qual me aboletei. Lá está escrito: Tudo aqui. De fato, tudo ali, e naquela hora. Ave Glauber!
* O jornalista e escritor Rogério Menezes viaja pelo interior baiano a convite da Secretaria de Cultura da Bahia.
Comentários
2 Responses to “A Glauber o que é de Glauber”
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Tudo ali! Mil informações e mais os próprios devaneios, né…?
Cai direto no meu próprio surto multi-pluri-trans-in-formativo-e+devaneios sofrido durante “o cortejo” que comemorou os 132 anos do Liceu… um quase “choque heterodoxo”, uma quase overdose e… plenamente, um gozo!
A sua descrição da cena remeteu-me à minha própria experiência, em momento simbolicamente semelhante, quando precisei estar marginal… quis me dar ao desfrute e gozar da visão exógena do momento…
Quase me vi também ali, “entre Lençois” e a imagem que compus, da sua cena, posso resumir numa frase: a Bahia toda ali, linda e rindo, no seu próprio umbigo!
Desejo que possa bem gozar, degustar, desfrutar desta tremenda aventura de Bahia.
Ave,axé,evoé… (e bom apetite!)
Nádia Barrêto.
Rogério,
A descrição da cena é fantástica, eu estive lá naqule dia, naquele instante em que as ruas de Lençóis foram invadidas pelas diversas culturas do interior da Bahia, mas somente uns olhos treinados e tomados por emoções podiam transcrever com tanta fidedignidade tal cena.
Cada grupo que passava, cada som produzido invadia a alma dos que ali se encontravam. Com a leitura deste texto revivemos cada cena nos mínimos detalhes.
Como os Glauberes devem estar orgulhosos, o que se foi rindo lá de cima com o que aqui plantara para servir de comparações e o que aqui está (Pitágoras) por receber tamanha homenagem.
Parabéns Pitágora por nos presentear com esse evento.
Parabéns Rogério pela reportagem.