Veja opinião de delegados sobre Alagoinhas
Delegados de Rio Real, Itapicuru e Alagoinhas falam sobre a Conferência Territorial do Agreste de Alagoinhas/Litoral Norte, encerrada ontem, em matéria exibida pela TV Educativa da Bahia.
A cura da senosite e o proustiano badoque
Por Rogério Menezes *
O mundo girou & a lusitana rodou, mas, tal & qual nas longínquas infâncias vividas nos anos 1960, garotos continuam matando lagartixas com badoques. O local que gerou esta conclusão: mercado tripartite alagoinhense, meio caidaço mas ainda fulgurante, onde farinhas, carnes e tapiocas disputam a atenção e, basicamente, os narizes do público. Lá conheci dona Nalva. Ela vende, na Barraca Padre Cícero, plantas e beberagens que jura ter capacidades curativas milagrosas (Que tenham!).
Uma das mais procuradas é, segundo me conta essa mulata inzoneira pra lá de balzaquiana, a bucha-paulista – prima em primeiro grau, mas em tamanho beeem menor, daquela bucha maior, e que ela também vende, e que precedeu o bombril, e que fazia sucesso entre as donas de casa de antanho no quesito arear-panelas-e-torná-las-mais-brilhantes. (Mas dona Nalva garante, a bordo de sorriso esplendoroso, que essa bucha gigante agora não serve mais para arear panelas e sim para limpar corpos: – Cê esfrega no corpo e a sujeira sai toda.)
Encantado com a cartela de produtos que Dona Nalva oferece, pergunto-lhe: – Serve pra quê a bucha paulista? Ela, sem titubear: – Frevida em água, cura coquer senosite.
Não que eu duvide do que a simpática dona Nalva garante a respeito da capacidade de a bucha paulista curar senosite, mas prefiro comprar, por 2 reais, proustiano badoque, que ela inusitadamente vende entre os mil e um remédios populares que negocia.
Não que tenha matado lagartixas com badoques na minha infância, mas tinha profunda admiração, e inveja, dos garotos que cometiam essa peraltice sem culpa alguma. Eu – e isso nunca me garantiu, nem me garantirá, lugar algum no céu – tinha pudores. Achava que matar lagartixas me levaria diretamente para o inferno. Sem escalas.
Badoque adquirido e enfiado na sacola, mergulho no mar de cheiros do lugar (o mercado de carne & farinha & tapioca, no centro de Alagoinhas). Sorvo então com avidez outro néctar, tão proustiano quando o badoque, e que também me faz voltar no túnel do tempo em questão de microssegundos: o odor de farinha-de-mandioca (ou de farinha-de-guerra) que emana do lugar. Resultado: a infância voltou desabrida, a galope, serelepe, alegre – e, não fosse o meu superego sempre alerta (e ainda bem que tenho superego sempre alerta), teria saído a saltitar e cantarolar tal & qual Julie Andrews em A Noviça Rebelde.
Poucos metros depois, deparo com a barraca do senhor Artur. Ele vende aqueles sabões rústicos, chamados ontem e ainda hoje de sabão-anil, com pintas azuis e cheiro levemente doce (e inesquecível) que o meu pai costumava vender na venda que possuía no Mercado Municipal, 22, em Jequié, em tempos idos.
Na sequência de memórias, puxo do baú outro tipo de sabão que precedeu o uso massivo do sabão em pó, e que as donas de casa e lavadeiras de beira de rio do interior da Bahia de antanho usavam na lavagem de roupas: o sabão-massa.
Pergunto ao senhor Artur se o sabão-massa ainda é fabricado. Ele diz que, pelo menos em Alagoinhas, não mais. Puxa então dois dedos de prosa, e conta história triste: os dois homens que fabricavam e forneciam esse produto na região morreram há algum tempo, e do mesmo mal: – Eles se chamavam Lulu e Vavá. Morreram de tanto mexer naqueles grandes caldeirões nos quais aspiravam aquela mistura quente e venenosa de soda cáustica, breu e sebo, produtos básicos na fabricação do produto. Que Deus os tenha em bom lugar!
Amém, senhor Artur, amém!
Circulo mais pelo lugar, e a overdose de cheiros fortes e nostálgicos quase me embriaga (linguiças gordurosas feitas in locum; camarões secos de todos os tamanhos; tapiocas recheadas com coco; oscambau). A ponto de sair para a rua meio tonto, sem saber ao certo para onde devo ir.
Respiro fundo, retomo o fôlego perdido, e sei ao certo para onde devo ir: as ruínas mais famosas da cidade: 1) as da estação ferroviária de São Francisco, em estilo art-déco, inaugurada em 1980, e hoje caindo aos pedaços – num crime de lesa-patrimônio inafiançável. 2) as da igreja de Santo Antonio, em Alagoinhas Velha, que, ainda em construção, foi abandonada, no final do século 19, e hoje tenta resistir ao tempo como pode – num outro crime de lesa-patrimônio inafiançável.
Apesar da dedicação de Dona Iraci Gama – (professora de português queridísima e profunda conhecedora da história da cidade que se dedica diuturnamente à missão de fazer com que esses notáveis monumentos históricos não sumam completamente do mapa) – esses tesouros históricos vivem neste exatíssimo momento ao mais inexorável deus-dará. (Dá um nó no peito vê-los do jeito que estão: cadáveres insepultos expostos à luz do sol e dos abutres).
Diante desses cadáveres insepultos expostos à luz do sol e dos abutres engulo o choro: lembro os cheiros e as iguarias de antanho que continuam avassaladores no mercado de carnes & farinhas & tapiocas do centro da cidade de Alagoinhas, e sigo em frente. (Por que não? Por que não?)
* O jornalista e escritor Rogério Menezes viaja pelo interior da Bahia a convite da Secretaria de Cultura da Bahia.
Onde ainda se come água
Viajar pelo interior é resgatar expressões que parecem já ter saído do mapa, mas que continuam lá, firmes & fortes. Por exemplo: comer água. Que vem a ser: consumir bebida alcoólica sem nenhuma moderação. Em Irará, em conversa com Emerson Nogueira, fotógrafo local que me mostrou seus ótimos registros fotográficos e poderá ter belo futuro profissional, ouvi: - Fiz essa foto num dia que saí pra comer água!
No centro de Alagoinhas, um garoto branquelo saiu do nada bem na minha frente, abraçou um amigo que acabara de reencontrar, e bradou: - Hoje é dia de comer água!
Que seja! (Rogério Menezes)








