Onde ainda se come água
Viajar pelo interior é resgatar expressões que parecem já ter saído do mapa, mas que continuam lá, firmes & fortes. Por exemplo: comer água. Que vem a ser: consumir bebida alcoólica sem nenhuma moderação. Em Irará, em conversa com Emerson Nogueira, fotógrafo local que me mostrou seus ótimos registros fotográficos e poderá ter belo futuro profissional, ouvi: - Fiz essa foto num dia que saí pra comer água!
No centro de Alagoinhas, um garoto branquelo saiu do nada bem na minha frente, abraçou um amigo que acabara de reencontrar, e bradou: - Hoje é dia de comer água!
Que seja! (Rogério Menezes)
O cordel vai à escola
Som nas alturas
Quatro da tarde de domingo de sol em Irará. Rua Rui Barbosa. O barulho que sai de lugar que se esconde por trás de muro alto, e que soube depois se chamar Arena Show, é ensurdecedor. Nas imediações, motoqueiros conversam em altos níveis de excitação. Pergunto a alguém o que acontece ali. Resposta: um festival de carros de som. O evento me interessa, pago 5 reais pelo ingresso, e adentro amplo quintal (ou algo parecido, em que matinhos verdes escapam do árido chão de cimento). O que vejo me espanta, e me fascina: centenas de jovens iraraenses bebem cerveja, namoram e tentam dançar sob os inclementes ruídos saídos das caixas de som de oito carros. Algumas delas têm quase três metros de altura, e sons que, de tão ensurdecedores, se tornam absolutamente insuportáveis. Não para aquela galera que ensandece e alucina com esses altíssimos decibéis. Tento conversar com alguém nesse barulho infernal. Consigo trocar algumas frases com jovem negro de dentes cariados à mostra e copo de cerveja na mão. Ele conta: – Esse tipo de festa acontece em toda a região, mas é a primeira vez que acontece por aqui. É massa. Se depender de mim, vai acontecer sempre. Antes que fique surdo, agradeço pela informação, e vou embora. (Rogério Menezes)
Sobre tons e zés que habitam as nossas irarás
Por Rogério Menezes *
Pé na estrada e perigas ver. A idéia era (e é) essa. Em vez de domingo no parque, domingo no sertão (de Irará; a duas horas de automóvel de Salvador). Em vez de Gil & Caetanos, Tom Zé, o grande menestrel pop dos nossos sertões. Em vez de ficar ruminando sobre o óbvio e se queixando da loucura das grandes cidades, mergulhar em universos paralelos, em culturas ocultas (ou melhor, ocultadas) eternamente à sombra dos modismos impostos por todas as mídias. Sem saudosismo. Sem ilusões: como em todos os caminhos, pelo interior também existirão o sublime e o abjeto; o notável (variado) e o trivial (simples). A idéia era (e é) tirar a bunda da cadeira em frente ao imóvel computador-totem e chafurdar na poeira das estradas do interior da Bahia; revelar sentimentos, movimentos, pulsões, tendências, desejos, simpatias, antipatias – ou até mesmo nadas.
Logo ao chegar à cidade erma em quente manhã de domingo de outubro, alguém me contou, apontando para posto de gasolina sem viço algum, sem charme algum, que nos espreitava: – Pertence ao meio-irmão de Tom Zé. Foi aqui que ele ameaçou se tornar frentista no período de ostracismo em que viveu. Legenda necessária ao caro leitor: tempo vivido pelo artista iraraense entre São São Paulo Meu Amor (o mais belo hino-criado-por-baiano-à-nossa-única-megalópole; ok, Sampa, de Caetano Veloso ocupa honroso segundo lugar) e a redescoberta desse baiano notável por David Byrne, que, justissimamente, o tirou do limbo ao qual o `destino´ o submetera (a justiça divina tarda, mas não falha, já dizia minha mãe, e acreditei nela) e o catapultou novamente à condição de antena da raça brasileira, condição da qual, aliás, nunca deveria ter saído (Mas fazer o quê: vivemos num mundo e num Brasil em que os bons nem sempre são os que vencem no final do filme; e sempre foi assim, o mundo nunca foi melhor ou pior, o mundo sempre foi (e será) uma selva abissal na qual, para atravessá-la, será preciso travar luta renhida; portanto não há, repito, saudosismo algum, e sim estoicismo, no disco-rígido (H.D) deste velho lobo do mar que ora vos escreve.
Já sem a companhia de algum guia que soubesse tudo sobre Tom Zé e a cultura local (sim, ainda há culturas locais, caras-pálidas!, tenho certa dificuldade em entender como essas culturas locais ainda existem, mas, sim, sobrevivem, frouxamente ou galhardamente, a depender do foco, da hora e do lugar), busco a casa do avô de Tom Zé, e onde passou boa parte da infância. Passa por mim garoto nativo, e o inquiro: – Sabe onde fica a casa do avô de Tom Zé? Ele: – Num-sei-não-sinhô. Eu: – Você sabe quem foi Tom Zé? Ele: – Num-sei-não-sinhô! (Normal. Ao contar-lhe essa história, prezado leitor, não quero chafurdar na lama dos lamurientos e lamentar a des-memória das novíssimas gerações. A fila anda: como exigir daquele mirrado garoto nascido talvez em 2001-odisséia-no-espaço essa, digamos, informação-de-época?).
Mas não posso deixar de lamuriar o que um outro `guia´ local me contou: a diretora do grupo escolar que hoje funciona na casa onde Tom Zé nasceu, manteve apenas a fachada do belo prédio construído no começo do século 20, e derrubou quase todas as paredes internas do lugar. Não satisfeita, pretende agora por abaixo todo o resto e fazer daquele espaço uma escola mu-der-na. Aqui, e espero que o leitor me entenda e até mesmo se identifique comigo, a náusea (sartriana, mas não só) foi inevitável.
No final da tarde de domingo, enquanto, ao redor do coreto da pracinha central, via a banda passar (a filarmônica iraraense Vinte e Cinco de Dezembro; arrebatadora) e prospectava novos-velhos ritmos entre grupos de sambas de roda (entre os quais pontificava o trepidante Pisadinha), encontrei amiga muito querida de Salvador que não via havia muito.
Constatamos que estávamos ambos sedentos por suculenta xícara de café com leite, tipo aquelas nas quais sorvíamos com imoderado êxtase nas nossas infâncias. De início, não acreditamos que pudéssemos encontrar essa almejada bebida quente no acanhado comércio noturno local, coalhado, invariavelmente, com as cocas-colas, cervejas e birinaites de sempre. De repente, a luz. No hall de certa casa de família nas imediações da praça do coreto, improvisava-se pequeno bar, onde brilhavam sobre forte luz branca doces e salgados diversos. Nossa amiga e eu perguntamos com avidez, em nada ensaiado, mas afiado, dueto: – A senhora serve café com leite?
Dona Gilka (assim se chamava a dona do, digamos, lar-bar) abriu sorriso orelhal (de orelha a orelha, e nos deu a boa notícia: – Não só sirvo, como convido vocês para tomar café com leite comigo lá dentro de casa. Entrem, meus queridos, entrem!
Entramos; tomamos o mais revigorante café com leite que havíamos tomado em anos; e trocamos vários dedos de prosa com Gilka e a mãe, Dona Nilce, que, por sinal (e aqui voltamos ao começo desta história) conhecera e convivera com toda a família Santana (na qual o grande destaque musical era, e é, o nosso velho & bom Tom Zé).
Saímos de lá gratíssimos, e plenamente convictos: há todo um universo paralelo em pleno vigor nos nossos interiores, na direção dos quais deveríamos voltar os nossos olhares e antenas com mais intensidade. Ou seja, deveríamos olhar menos para os nossos próprios rabos e mais para o rabo dos outros (epa!). Perdão, Jean-Paul Sartre, mas nem sempre o inferno serão os outros.
* O escritor e jornalista Rogério Menezes viaja pelo interior da Bahia a convite da Secretaria de Cultura da Bahia.
Festa no coreto
Abertura da Conferência Teritorial de Cultura do Portal do Sertão, na Praça da Bandeira, em Irará. Na sequência de aparição no vídeo: Samba de Roda do Coqueirinho (Santa Bárbara), Filarmônica 25 de Dezembro, Bumba meu boi de Biu, Pisadinha do Pé Firme e a banda de percussão Purificaê.
Irará cria Secretaria de Cultura
Prefeito assina decretos, aplaudido pelo secretário de Cultura, Marcio Meirelles.
O prefeito de Irará, Derivaldo Pinto, assinou ontem, na abertura da Conferência Territorial de Cultura do Portal do Sertão, projetos de lei para a criação do Sistema Municipal de Cultura e da Secretaria de Cultura.
Irará será a primeira cidade do terrtiório Portal do Sertão e a 22ª dentre as 417 do Estado a ter uma secretaria específica da Cultura. Os projetos vão agora para apreciação da Câmara de Vereadores. Na atual estrutura administrativa, a cultura ocupa apenas um departamento na Secretaria de Educação, Cultura e Esporte.
Irará abre hoje conferências territoriais

Irará, lavagem de janeiro de 2009. Foto: Guto Jads
A cultura é o assunto do dia hoje em Irará. Hoje e amanhã, a cidade de Tom Zé realiza a conferência territorial de cultura do Portal do Sertão, a primeira das 26 preparatórias da III Conferência Estadual de Cultura da Bahia.








