Bastidores – Orquestra Sinfônica Juvenil da Bahia Dois de Julho (Neojibá)
Centenas de pessoas participam da III Conferência Estadual de Cultura

Dirigentes de cultura, delegados eleitos nas Conferências Territoriais, artistas e produtores culturais de toda a Bahia estão reunidos, desde quinta-feira (26) até domingo (29), em Ilhéus, para discutir políticas públicas de cultura. Nestes dias, a cidade está conhecendo manifestações culturais dos 26 territórios de identidade do Estado e participandode debates em que serão apresentadas propostas, políticas e ações para os diversos setores de cultura do estado e do país.
As propostas serão levadas para a 2ª Conferência Nacional de Cultura, que acontece de 11 a 14 de março de 2010, em Brasília, e irão compor o projeto de Lei Orgânica da Cultura que será encaminhado para aprovação da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia.
Sob o tema Cultura, Diversidade, Cidadania e Desenvolvimento, o mesmo da conferência nacional, o encontro em Ilhéus acontece após a realização das conferências municipais, territoriais e setoriais de cultura realizadas no Estado.

Além dos Grupos de Trabalhos e Plenárias, grupos se organizam para discutir sub-temas.
Resultado do Edital Microprojetos Culturais é divulgado na III CEC
O Edital Microprojetos Culturais, voltado apenas para municípios do semiarido baiano, foi divulgado hoje (27/11) na III Conferência Estadual de Cultura, em Ilhéus. Foram premiados 243 projetos com valor de até R$ 13 mil reais. Confira a lista de aprovados: www.funceb.ba.gov.br
Diversidade na construção da Lei Orgânica da Cultura
Os temas para discussão da Lei Orgânica da Cultura atraem interessados de todos os lugares e por diferentes motivos. Nathalia Fodisch, que atua na Secretaria de Audiovisual do MinC, estava no grupo de trabalho de Sistemas de Cultura – Instâncias de Consulta e Participação. Seu objetivo foi estudar as possibilidades de diálogo entre cultura e comunicação para a 1ª Conferência Nacional de Comunicação.
Já Sebastião Santos Silva, poeta e cordelista, do município de Urandi, veio para garantir a participação popular na formulação da Lei Orgânica da Cultura. O que significa, para ele, o ponto mais importante desse debate.
- Nathalia Foditsch
- Sebastião Santos
Semiárido está representado pelo escritor de Nova Soure

Autor de oito livros; entre romances, crônicas, poesias e contos; o escritor novasouriense José Erenilson fala da satisfação de viajar mais de 1000 km para participar da III Conferência Estadual de Cultura da Bahia, que está sendo sediada na cidade de Ilhéus: “A secult está de parabéns pela escolha desta bela cidade de São Jorge dos Ilhéus, que serviu de palco para as tramas de Jorge Amado. Posto que sairemos daqui enriquecidos com as propostas estabelecidas pelo fórum, e com a forte impressão de que a cultura baiana respira novos e promissores tempos”, relata emocionado.
Desenhista Ayam V’Brais expõe na III Conferência Estadual de Cultura
O desenhista Ayam V’Brais, natural da cidade de Itabuna, está neste momento expondo seus trabalhos em filisminografia (desenho com caneta esferográfica e betumadas no papel cartão) no Centro de Convenções de Ilhéus, durante a III Conferência Estadual de Cultura da Bahia. Ayam, que já representou a Bahia no Circuito Internacional de Arte Brasileira, desenvolve, por incentivo de sua avó que era artesã, esta técnica desde os quatro anos de idade. Suas obras passeiam por desenhos de Glauber Rocha, Nina Simone, Elis Regina, Clarice lLispector, entre outros. O valor médio da tela fica em torno de R$ 100.
Tenda Digital é espaço para trocas e comunicação com redes

A Tenda Digital é uma das principais novidades da III Conferência Estadual de Cultura. Nesse ambiente, será gerado conteúdo para as mais variadas interfaces da internet, como blogs, sites e redes sociais, além de podcasts (para rádios) e vídeos (para a TV).
“Vamos lançar olhar sobre a tecnologia. Os 26 territórios estão vinculados a uma rede de interfaces virtuais, usam o computador de forma inteligente. Por isso, aproximamos tecnologia à cultura, de forma a resguardar toda diversidade de expressões artísticas de nosso Estado”, afirma Meran Vargens, coordenadora artística da III Conferência.
Na tenda, grupos culturais vão poder expor DVDs e fotos. Eles irão receber ainda orientações de como criar seus próprios blogs e sites. Além disso, um Espaço de Convivência com artistas dos 26 territórios e produção de desenhos no Espaço Interativo onde o visitante poderá, através de imagens, retratar o território de identidade em que vive.
Sobre tons e zés que habitam as nossas irarás
Por Rogério Menezes *
Pé na estrada e perigas ver. A idéia era (e é) essa. Em vez de domingo no parque, domingo no sertão (de Irará; a duas horas de automóvel de Salvador). Em vez de Gil & Caetanos, Tom Zé, o grande menestrel pop dos nossos sertões. Em vez de ficar ruminando sobre o óbvio e se queixando da loucura das grandes cidades, mergulhar em universos paralelos, em culturas ocultas (ou melhor, ocultadas) eternamente à sombra dos modismos impostos por todas as mídias. Sem saudosismo. Sem ilusões: como em todos os caminhos, pelo interior também existirão o sublime e o abjeto; o notável (variado) e o trivial (simples). A idéia era (e é) tirar a bunda da cadeira em frente ao imóvel computador-totem e chafurdar na poeira das estradas do interior da Bahia; revelar sentimentos, movimentos, pulsões, tendências, desejos, simpatias, antipatias – ou até mesmo nadas.
Logo ao chegar à cidade erma em quente manhã de domingo de outubro, alguém me contou, apontando para posto de gasolina sem viço algum, sem charme algum, que nos espreitava: – Pertence ao meio-irmão de Tom Zé. Foi aqui que ele ameaçou se tornar frentista no período de ostracismo em que viveu. Legenda necessária ao caro leitor: tempo vivido pelo artista iraraense entre São São Paulo Meu Amor (o mais belo hino-criado-por-baiano-à-nossa-única-megalópole; ok, Sampa, de Caetano Veloso ocupa honroso segundo lugar) e a redescoberta desse baiano notável por David Byrne, que, justissimamente, o tirou do limbo ao qual o `destino´ o submetera (a justiça divina tarda, mas não falha, já dizia minha mãe, e acreditei nela) e o catapultou novamente à condição de antena da raça brasileira, condição da qual, aliás, nunca deveria ter saído (Mas fazer o quê: vivemos num mundo e num Brasil em que os bons nem sempre são os que vencem no final do filme; e sempre foi assim, o mundo nunca foi melhor ou pior, o mundo sempre foi (e será) uma selva abissal na qual, para atravessá-la, será preciso travar luta renhida; portanto não há, repito, saudosismo algum, e sim estoicismo, no disco-rígido (H.D) deste velho lobo do mar que ora vos escreve.
Já sem a companhia de algum guia que soubesse tudo sobre Tom Zé e a cultura local (sim, ainda há culturas locais, caras-pálidas!, tenho certa dificuldade em entender como essas culturas locais ainda existem, mas, sim, sobrevivem, frouxamente ou galhardamente, a depender do foco, da hora e do lugar), busco a casa do avô de Tom Zé, e onde passou boa parte da infância. Passa por mim garoto nativo, e o inquiro: – Sabe onde fica a casa do avô de Tom Zé? Ele: – Num-sei-não-sinhô. Eu: – Você sabe quem foi Tom Zé? Ele: – Num-sei-não-sinhô! (Normal. Ao contar-lhe essa história, prezado leitor, não quero chafurdar na lama dos lamurientos e lamentar a des-memória das novíssimas gerações. A fila anda: como exigir daquele mirrado garoto nascido talvez em 2001-odisséia-no-espaço essa, digamos, informação-de-época?).
Mas não posso deixar de lamuriar o que um outro `guia´ local me contou: a diretora do grupo escolar que hoje funciona na casa onde Tom Zé nasceu, manteve apenas a fachada do belo prédio construído no começo do século 20, e derrubou quase todas as paredes internas do lugar. Não satisfeita, pretende agora por abaixo todo o resto e fazer daquele espaço uma escola mu-der-na. Aqui, e espero que o leitor me entenda e até mesmo se identifique comigo, a náusea (sartriana, mas não só) foi inevitável.
No final da tarde de domingo, enquanto, ao redor do coreto da pracinha central, via a banda passar (a filarmônica iraraense Vinte e Cinco de Dezembro; arrebatadora) e prospectava novos-velhos ritmos entre grupos de sambas de roda (entre os quais pontificava o trepidante Pisadinha), encontrei amiga muito querida de Salvador que não via havia muito.
Constatamos que estávamos ambos sedentos por suculenta xícara de café com leite, tipo aquelas nas quais sorvíamos com imoderado êxtase nas nossas infâncias. De início, não acreditamos que pudéssemos encontrar essa almejada bebida quente no acanhado comércio noturno local, coalhado, invariavelmente, com as cocas-colas, cervejas e birinaites de sempre. De repente, a luz. No hall de certa casa de família nas imediações da praça do coreto, improvisava-se pequeno bar, onde brilhavam sobre forte luz branca doces e salgados diversos. Nossa amiga e eu perguntamos com avidez, em nada ensaiado, mas afiado, dueto: – A senhora serve café com leite?
Dona Gilka (assim se chamava a dona do, digamos, lar-bar) abriu sorriso orelhal (de orelha a orelha, e nos deu a boa notícia: – Não só sirvo, como convido vocês para tomar café com leite comigo lá dentro de casa. Entrem, meus queridos, entrem!
Entramos; tomamos o mais revigorante café com leite que havíamos tomado em anos; e trocamos vários dedos de prosa com Gilka e a mãe, Dona Nilce, que, por sinal (e aqui voltamos ao começo desta história) conhecera e convivera com toda a família Santana (na qual o grande destaque musical era, e é, o nosso velho & bom Tom Zé).
Saímos de lá gratíssimos, e plenamente convictos: há todo um universo paralelo em pleno vigor nos nossos interiores, na direção dos quais deveríamos voltar os nossos olhares e antenas com mais intensidade. Ou seja, deveríamos olhar menos para os nossos próprios rabos e mais para o rabo dos outros (epa!). Perdão, Jean-Paul Sartre, mas nem sempre o inferno serão os outros.
* O escritor e jornalista Rogério Menezes viaja pelo interior da Bahia a convite da Secretaria de Cultura da Bahia.










